Livros para levar para Casa - O Estaleiro de Onetti



O uruguaio Juan Carlos Onetti (1909-1994) é autor de um dos universos literários mais originais e coerentes da literatura em língua espanhola; infelizmente, o seu reconhecimento tem sido lento. A Ulisseia acaba de reeditar, em nova tradução - a anterior é da década de 80 -, o romance "O Estaleiro" (1961), uma obra-prima de rigor e delicadeza e que é talvez o melhor exemplo desse nebuloso mundo onettiano feito de personagens sóbrias que parecem caminhar sem rumo, afundadas na melancolia, debatendo-se sem vontade numa indolente inércia sem esperança ou, ainda, entregando-se de braços caídos, numa espécie de sonambulismo, a um desespero que parece fatídico.

Em "O Estaleiro", Onetti conta-nos a história da decadência de um homem, Larsen, que, cinco anos depois de ter sido expulso da cidade, volta a Santa María com o seu "ar de forasteiro negligente" e a esperança de dar um sentido à vida, qualquer que ele seja. (Santa María, esse lugar mítico onettiano - à semelhança da Macondo, de García Márquez, ou da Comala, de Juan Rulfo - surgiu pela primeira vez na geografia literária latino-americana no conto "A Casa na Areia", de 1949, e logo no ano seguinte no romance "A Vida Breve" (Relógio d'Água, 2008)).

Larsen emprega-se como gerente num estaleiro em ruínas, onde há já muito tempo que não é reparado qualquer barco; o seu escritório inverosímil, entre "os ratos e a esponja das madeiras podres", situa-se num edifício cinzento perdido numa "paisagem amarelada e desconsolada", cercado por ervas daninhas e por vedações de arame onde crescem trepadeiras. Neste ambiente desolador, o seu trabalho não tem qualquer sentido, qualquer esforço é inútil para tirar o estaleiro do caos em que mergulhou. Vive num quarto de uma pensão miserável "ouvindo o anúncio do fim da tarde nos gritos dos animais distantes". Entretanto, vai fazendo a corte a Angélica Inés, uma rapariga tonta filha de Jeremías Petrus, o velho que é dono do estaleiro. Passado algum tempo, apercebe-se de que os outros dois empregados (Gálvez e Kunz) vendem peças que estão por ali abandonadas para fazerem algum dinheiro, pois os seus salários existem apenas nos livros de contabilidade da empresa. Mais tarde, e antes de desaparecer, um dos homens acabará por denunciar o velho Petrus, entregando à polícia provas de falsificação de documentos.

É neste vazio existencial, de viver por viver, de onde a única saída parece ser a morte, que Onetti nos dá conta da decadência de um homem que acabará por não se conseguir salvar no absurdo da vida numa sociedade miserável, nessa mítica Santa María ("terriola verdadeiramente imunda", como diz a personagem Larsen). O universo literário onettiano é este mundo de vidas que não se chegam a cumprir, marcadas pelo pessimismo, e em que as personagens têm arreigada a ideia de que, façam o que fizerem, no fim não conseguirão escapar a serem devoradas pela frustração. Não raras vezes, o singular universo do escritor uruguaio é visitado por personagens amorais, por seres solitários e abandonados, ou por prostitutas desesperadas (Larsen foi em tempos dono de um bordel); são seres que se movem lentamente perto do abismo (do qual só conseguirão salvar-se se forem capazes, ao contrário de Larsen, de encenar continuamente o delírio ou a loucura). Esta dialéctica, tantas vezes recorrente na sua obra, entre a realidade e o mundo imaginado, que serve como ponto de fuga ao desespero das personagens, parece ter sido inspirada na própria vida do autor uruguaio, que, e ainda segundo Vargas Llosa, encontrou na literatura um antídoto para o seu irremediável "pessimismo congénito".

Comentários