A Livraria Portugal deixa Saudades



Na hora de fecho todos compareceram, muitos alertados pelo cartaz que indicava 70 por cento de desconto, outros por terem alguma relação pessoal. A Livraria Portugal, na baixa lisboeta, fechou e talvez tenha tido a sua maior receita em anos. Na hora da morte a cura apareceu, mas tarde de mais.

Às 20.45 horas desta quarta-feira, a chave rodou pela última vez no trinco da porta, 70 anos após ter aberto pela primeira vez. Durante o dia o espaço encheu como já não acontecia há muito tempo. «Fizemos mais nesta semana do que nos meses anteriores», suspirou Ana Paula Neves, que há 20 anos trabalhava naquela casa. 

Durante anos a Livraria Portugal foi local de cultura, com tertúlias às quais compareciam as figuras intelectuais da altura. De ministros a crianças, reuniam-se todos pelos livros, alguns que apenas existiam naquele espaço e que até davam nome à livraria. Chegaram a ter volumes que já estavam esgotados nas próprias editoras. E durante anos tiveram um boletim que corria o mundo, com as novidades mensais que podiam ser encomendadas.

Tirando 15 minutos do seu tempo, Vasco Graça Moura, diretor do Centro Cultural de Belém, deu um pulo à Livraria Portugal, como fez durante tantos anos. «Não vinha há algum tempo, especialmente desde que estive em Bruxelas, mas antigamente vinha cá muitas vezes em busca de edições históricas e obras de cultura erudita. Voltei porque soube do fecho e vim procurar umas últimas relíquias. Com o fim desta livraria desaparece um polo de cultura, ainda por cima agora que tão necessitados estamos disso», disse a A BOLA.

Mas o fim acabou por chegar. A globalização não deu hipóteses ao negócio, muito menos a concorrência. «As grandes superfícies vendem 60 por cento dos livros. As livrarias com grandes grupos por trás vendem 30 por cento. Isto sem contar com a internet, como podem as livrarias tradicionais sobreviver com 10 por cento?», questiona Joaquim Carneiro, gerente da livraria onde trabalhava há 48 anos.

As fracas vendas no Natal ditaram o destino da livraria. «Foi aí que percebemos que tínhamos de fechar. Se era este o fim que queria? Não, queria sair e depois passar aqui e ver os livros na mesma. Vim para aqui em pequeno, casei, tive os meus filhos e estive sempre aqui. Agora morreu», afirmou o gerente.

Onze pessoas vão agora para o fundo de desemprego. No final fica o espaço que irá agora abrigar outro tipo de estabelecimento. «Até para os letreiros tenho comprador», diz Joaquim antes de se despedir. 

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