Sugestão - Origens - Amin Maalouf


Desta vez, as emoções pessoais de Amin Maalouf estão coladas aos documentos históricos através dos quais ele respira vida: os seus arquivos familiares. O livro é na realidade duas histórias numa só. Antes de mais é a história dos seus avós: uma viagem pelas suas lutas colectivas e individuais para conseguir viver nas montanhas libanesas, em Beirute, nos Estados Unidos e em Cuba. Mas é também a própria história de Maalouf, pesquisando e investigando sobre os seus antepassados, levando-o a uma descoberta dele mesmo...



Amin Maalouf, escritor libanês radicado em França, tem editado em Portugal uma vasta obra, nomeadamente “Origens”(uma edição da Difel), relato verídico sobre a sua família que tem todo o sabor de um bom romance. O protagonista é o avô, um homem impressionante para quem o conhecimento é a fonte de vida, e os cenários vão desde o Líbano, a Cuba e aos Estados Unidos.
Nascido no Líbano em 1945, Amin Maalouf está radicado em França desde
1976, para onde fugiu da guerra. Foi grande repórter durante 12 anos. É autor de obras como “Samarcanda” e “O Rochedo de Tânios” (Prémio Goncourt)

Quando começou a trabalhar nesta obra já tinha a ideia de quão rica era a história da sua família?
De início nem sequer sabia se ia encontrar documentos. Estava mesmo resignado a transformar o livro em romance, e a mudar o nome, porque me convenci de que iria utilizar muita imaginação para ocupar todos os espaços em branco da história. Mas tive a sorte de encontrar muitos documentos e locais que me permitiram contar uma história sem necessitar de recorrer à ficção.
E porque se decidiu a fazer a história da sua família?
Sempre me falaram muito do meu avó e do seu irmão que foi para Cuba. Sobretudo o meu avô era muito venerado na família, mas sabia pouco sobre ele e queria saber mais e tinha a necessidade de dar a conhecer esta vida porque é uma pessoa que acreditava em determinados valores, que teve uma acção benéfica no ensino e que caiu no esquecimento, mesmo no seio da família.
Senti que tinha o dever de recordá-lo.
Mas este ensaio é quase um romance!…
Não tive a necessidade de inventar porque ele teve uma vida extraordinária.
A história da sua família, parece-me, é um pouco a história de um povo?
Está correcto. É a história de muitas famílias, é a história de muitos povos que sentiram a tentação da emigração. Em muitas famílias há irmãos que emigraram, outros que ficaram, outros que regressaram. Muitas famílias do Líbano conheceram exemplos destes.
Há uma espécie de rivalidade entre os emigrantes e os que permanecem no país?
Sim. Há sempre uma tendência para comparar. Mas, a partir do momento em que se faz uma escolha não se pode olhar para trás.
Você é um emigrante. Nunca desejou regressar ao Líbano?
Não é algo que me preocupe. É possível que um dia sinta necessidade de regressar. Se o Líbano mudar, se passar por um período da minha vida que tenha a necessidade de voltar. Mas sinto-me bem em França. Para mim o mais importante é estar num ambiente onde possa escrever. A minha pátria é o sítio onde posso escrever.
A procura do conhecimento é uma característica da sua família?
Sempre foi assim desde há três ou quatro gerações. Penso que começou o com meu bisavô, que resolveu deixar a casa da família para ir para uma escola moderna, uma ideia que esteve na origem deste desejo de aprender na família. O meu avô também partiu de um meio relativamente inculto mas conseguiu estudar em escolas de qualidade. Após três ou quatro gerações formou-se um culto da sabedoria e a tradição manteve-se. Na minha família há muitos professores, poetas…
O conhecimento pode ajudar a aproximar o Oriente do Ocidente, ou os problemas religiosos sobrepõem-se a tal?
Penso que o conhecimento é um factor importante mas não suficiente. Se conhecemos o outro com profundidade isso ajuda a evitar conflitos e mal-entendidos, mas não se pode dizer que basta conhecer o outro. Há povos que se conhecem e são os piores inimigos.
O seu avô simboliza a luta pelo conhecimento. É um exemplo a seguir?
Para mim sim, foi uma pessoa exemplar. A sua escala de valores é completamente respeitável. É alguém que venceu numa época apesar de ter uma certa ingenuidade que provocou algumas feridas. Quando contamos a vida de uma personagem (no caso real) é sempre difícil fazer dela um exemplo absoluto, porque há características ou momentos que não são momentos a seguir. De qualquer forma é um figura com valores do saber, da modernidade, da laicidade, da recusa da discriminação, aos quais adiro.
Ele defende a liberdade religiosa. Com uma maior liberdade religiosa a tensão existente na região poderia diminuir?
Acho que hoje em dia a relação com religião, seja no Próximo Oriente ou em outra região do mundo, está muito doente. Penso que a relação dele com a religião era muito saudável. A atitude que consiste em considerar os grupos religiosos como uma espécie de tribos que procuram a guerra é uma evolução inquietante. A atitude do meu avô, que defende que a religião é uma escolha pessoal e nunca motivo de discriminação, é uma boa atitude em relação à religião.
Escrever este livro esteve mais próximo da actividade de escritor ou de grande repórter?
Depende dos momentos. A parte de inquérito, os episódios em Cuba, são trabalho jornalístico, assim como o modo de utilizar documentos da família. Mas não há uma verdadeira ruptura entre as duas actividades.
Em Portugal, o Líbano, desde que terminou a guerra, passou a ser algo desconhecido. Que tipo de país é agora?
É um pequeno país com bastantes comunidades que sofreu muito com a guerra e que sofre em geral com todos os conflitos daquela região do mundo. É um país que saiu da guerra, mas que carrega ainda o fardo da guerra. Para mim, é um país que ainda não retornou à vida normal, apesar da já não viver em guerra. Ainda não passaram as sequelas políticas, sociais e psicológicas de 25 anos de guerra.
O Líbano já foi chamado de Suíça do Médio Oriente.
É uma designação errada. Aconteceu assim porque era um pequeno país rodeado de grandes países e que se mantinha à parte dos conflitos da região, e que tinha um sector de serviços e bancário importante. A Suíça soube manter um equilíbrio entre os diferentes grupos, mas o Líbano não conseguiu manter uma coexistência interna pacífica.

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