Sugestão de Cinema - Into the Wild (Lado Selvagem)


Realização: Sean Penn. Elenco: Emile Hirsch, Marcia Gay Harden, William Hurt, Jena Malone, Brian Dierker, Catherine Keener, Vince Vaughn, Kristen Stewart, Hal Holbrook. Nacionalidade: EUA, 2007.

1990: Christopher McCandless (Emile Hirsch) tem 20 anos e acaba de terminar a universidade. Em vez de se preparar para o previsto curso de direito, Christopher levanta o dinheiro do seu fundo escolar, faz um donativo àOxfam e abandona a sua família e a sua casa numa busca espiritual de renascimento fora do contexto de tirania das expectativas da sociedade, da sua definição de êxito e do materialismo que o rodeia. 1992: Christopher encontra-se no Alasca, fazendo de um autocarro abandonado a sua casa, caçando sem grande sucesso, lendo os livros que o inspiram e consultando um compêndio de plantas comestíveis.

Adaptando o livro homónimo de Jon Krakauer, o filme de Sean Penn reconstrói o caminho de Christopher em flashbacks ordenados cronologicamente, ao mesmo tempo que acompanha a sua estadia no ‘Magic Bus’ (actualmente um ponto de atracção para muitos jovens que se revêem na sua viagem espiritual).

O objectivo de Christopher é reinventar-se através de uma vida de pureza e negação. Para isso abandona o seu carro, o seu dinheiro e escolhe o nome Alexander Supertramp. Ao longo da sua odisseia pela América, Christopher beneficia da caridade de estranhos (aqueles cujos relatos são a fonte do livro e com o casting de quem Sean Penn parece ter sido particularmente cuidadoso e generoso, como que agradecendo-lhes): Wayne (Vince Vaughn), um amigável agricultor do South Dakota, o casal hippie Rainey e Jan (Brian Dieker e Catherine Keener), Ron (Hal Holbrook), um homem idoso que se afeiçoa a Christopher e que propõe adoptá-lo. Todos eles o confrontam com as suas escolhas e não é sem bastante apreensão que o vêem partir.

No seu idealismo, Christopher transforma-se num eremita, recusando todos os prazeres, abraçando a natureza e equipando-se para a sobrevivência (em suma, contentando-se com o mundo). Mas a natureza é tão bela quanto dura, tão generosa quanto implacável. Tão selvagem e assustadora quanto uma vida fechada em redor de uma carreira profissional e de um monte de empréstimos bancários.

“Into the Wild” não é uma explicação de Christopher (cujo diário serviu também de fonte). É apenas uma reflexão (não isenta de remorso) sobre um jovem que se deixou dominar pelas suas irrevogáveis escolhas, na busca de uma felicidade fora dos parâmetros sociais. É impossível não ler a sua rebelião contra os pais (William Hurt e Marcia Gay Harden) que ele considera o epíteto da falsidade. Paradoxalmente, a reaproximação um ao outro (e a sua humanização aos nossos olhos) é feita em torno do desaparecimento de Christopher. O que é difícil de entender é como Christopher se afasta da irmã Carine (Jena Malone – responsável também pela narração), a única a aceitá-lo e a alcançar, ainda que só em parte, as suas motivações.

Sean Penn está tão “apaixonado” por Christopher que recusa olhar para a sua teimosia ou egoísmo: eliminando a possibilidade da dúvida, negligenciando a estupidez de algumas das suas opções e atenuando a escravidão de Christopher ao seu ideal – adulterado cada vez que ele olha para o céu com o rasgo de um avião (ou à procura dele). É esta parcialidade que fragiliza “Into the Wild”.

É facilmente compreensível a necessidade de fuga, da ausência de pessoas, do silêncio. Mas não deverá ser preciso ignorar ou romper com os nossos afectos para perceber que a maior riqueza da vida reside na partilha. Christopher aprendeu-o da forma mais dura. A sede de coerência pode fazer-nos escravos dos nossos sonhos.

Emile Hirsch é hipnótico, cumprindo todo o esforço físico que o papel exige. E os breves segundos em que William Hurt se desmorona à frente dos nossos olhos é imensamente poderoso. E faz-nos sentir raiva por Christopher, no seu processo de melhoramento, ter retirado essa possibilidade a quem o amava. Mas também não conseguimos impedir-nos de sentir uma forte admiração (arriscaria até inveja) por essa coragem que nos falta.

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