As Escolhas de António Jacinto Pascoal (Um Filme; Um Livro)

António Jacinto Pascoal respondeu ao desafio proposto pela Biblioteca da Nazaré e deixou-nos duas sugestões. Um livro e um filme que manterão bem viva a nossa inquietação.



Os Recursos Humanos – Laurent Cantet
Drama - França (1999)
«O título ‘Recursos Humanos’ é antes de mais uma reacção ao cinismo da expressão. O ser humano é gerido da mesma maneira que se gerem stocks ou capitais... Tive vontade de jogar com esse duplo sentido e ir além das expressões administrativas codificadas para poder falar sobre os recursos do humano». 

O filme retrata uma história simples: Franck, um estudante de 22 anos, decide voltar para casa dos pais com o objectivo de estagiar no departamento de Recursos Humanos duma pequena empresa metalúrgica, onde o seu pai trabalha há mais de 30 anos. Devido ao seu entusiasmo, Franck ganha rapidamente a simpatia e o apoio da direcção. Assim, é convidado a participar nas negociações entre a empresa e sindicato sobre o polémico tema das 35 horas semanais. «A lei das 35 horas semanais tem repercussões imediatas nas vidas íntimas das pessoas já que regula precisamente o que é suposto escapar ao mundo do trabalho: o tempo de lazer, o tempo que temos para nós próprios», afirma Laurent Cantet. Depois de analisar a situação laboral da fábrica, e com base na sua experiência académica, Franck propõe uma solução: consultar directamente os trabalhadores, sem a intermediação do sindicato, sobre a questão das 35 horas semanais.

A solução é colocada em prática. Tudo corre bem, até que Franck descobre uma dura verdade: o seu trabalho está a ser usado para reduzir alguns dos efectivos, incluindo o seu pai.
Com este filme, que se inscreve dentro na vertente realista do que se conhece como «o novo cinema social francês», Cantet tem como objectivo mostrar alguns dos problemas laborais mais pertinentes na sociedade moderna: emprego precário, falta de motivação, instrumentalização do ser humano, ou seja, tudo aquilo que, de forma silenciosa, acaba com a dignidade dos trabalhadores.


A comprovar a qualidade da película da Laurent Cantet estão os prémios que o filme recebeu nos mais variados festivais europeus e americanos, entre os quais dois Césares 2001 (Melhor Primeira Obra e Melhor Actor Revelação). Olivier de Bruyn, crítico da revista francesa «Premiére», afirma peremptoriamente: «A lei das 35 horas serviu ao menos para uma coisa: um bom filme».   



Fome – Knut Hamsun


A acção de «Fome», um romance marcante e considerado um clássico da literatura mundial, decorre nos finais do século XIX.


O narrador, um jovem escritor, um homem solitário, deambula pelas ruas de Kristiania (actual Oslo) numa miséria extrema, enregelado pelo frio e tolhido pela fome.

Essa miséria em que vive, provoca-lhe momentos de delírio e violentas variações de humor. Mas cedo nos apercebemos de que a “fome” desse sonhador não é apenas física. Há a procura de uma identidade e de um reconhecimento dentro das suas próprias alucinações.

«Hamsum é o maior escritor de sempre» Thomas Mann



Knut Hamsun
BIOGRAFIA
Knut Hamsun (1859-1952), Prémio Nobel de Literatura em 1920, nasceu em Gudbrandsdalen e cresceu na pobreza em Hamarøy, na Noruega. Aos dezassete anos tornou-se aprendiz de sapateiro e, quase na mesma altura, começou a escrever. Passou alguns anos da sua vida nos Estados Unidos da América, viajando e exercendo várias profissões. Em 1899, publicaria as suas impressões sobre este período da sua vida no volume, «Fra det mederne Amerikas Aandsliv».
Regressado à Noruega publica o seu muito aclamado romance «Fome» (1890). Esta obra, devido ao uso iconoclasta que faz do monólogo interior e à ruptura com a tradicional lógica interna do romance é considerada pela crítica como um marco da literatura moderna, antecedendo obras de escritores como Franz Kafka






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