Cravos de Abril: "Gente Comum - Uma História da PIDE"

"Tentei fazer um espelho com pratas, mas não dava. Nunca me vi a um espelho lá dentro e sentia falta de me ver. Vi-me algumas vezes, mais tarde, em reflexo, num plástico transparente duma espécie de janela da porta divisória da cela, quando estava em contra-luz." (p. 91)

Esta passagem é talvez um dos momentos mais sensíveis e mais pessoais - e por isso mais desconcertantes - da biografia política de Aurora Rodrigues, intitulada Gente Comum - Uma História da PIDE, editada pela 100 Luz (custa 12 euros), e que hoje é lançada na antiga prisão política de Caxias, com apresentação dos historiadores Miguel Cardina e Fernando Rosas, este último antigo dirigente do MRPP, partido político a que Aurora Rodrigues pertenceu.

Hoje com 59 anos e magistrada do Ministério Público em Évora, Aurora Rodrigues aceitou em 2009 reconstruir a sua experiência de oposicionista à ditadura e de prisão pela PIDE, onde, de acordo com camaradas seus da época contactados pelo P2, foi dos estudantes mais brutalmente torturados. Gente Comum - Uma História da PIDE é um peculiar e impressionante testemunho e um importante livro de história oral, organizado pelo historiador António Monteiro Cardoso, também ele antigo militante do MRPP, e pela antropóloga Paula Godinho. Numa edição apoiada pela Associação Portuguesa de Mulheres Juristas e pelo Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, o livro apresenta textos de enquadramento dos dois investigadores, que servem de introdução a um envolvente e marcante depoimento na primeira pessoa feito por Aurora Rodrigues.

Um relato de memória que a própria justifica: "Acho importante contar o que me aconteceu, porque existe a ideia de que só eram presos e torturados grandes políticos, esquecendo-se que também o eram pessoas comuns, que era aquilo que eu era, sempre fui e ainda sou. Às vezes, leio aqueles livros sobre grandes figuras míticas que foram torturadas e não falaram, mas a verdade é que não foram só eles. Muitas pessoas comuns que se opunham ao regime, por uma razão ou por outra, foram torturadas e conseguiram resistir e nisso não há nada de extraordinário. (...) O medo existe sempre e nisso não há nada de extraordinário." (p. 117)


A franqueza e o desassombro de Aurora Rodrigues são uma constante, bem como a real coragem desta mulher que certamente surgiu aos olhos da ditadura e da polícia política como uma provocadora, tal a sua capacidade de afrontar os torturadores e de resistir à violência e à brutalidade com que foi tratada.

Cantar para não ceder

Nascida em 20 de Janeiro de 1952, em Vale da Azinheira, Minas de São Domingos, no Alentejo, e filha de um anarco-sindicalista, Aurora Rodrigues matriculou-se na Faculdade de Direito de Lisboa, em 1969/70, com 17 anos. Abordada pelo PCP, trabalha com o MRPP, fundado em 1970, pois considera este movimento mais abertamente contra a guerra colonial. Só aderirá formalmente depois de ver de perto o também estudante Ribeiro dos Santosser assassinado pela PIDE - episódio que é relatado no livro com uma genuinidade e uma emoção contida raras.

Aurora foi presa a 3 de Maio de 1973, nas traseiras da Faculdade de Letras, após um meeting de estudantes, e levada para Caxias, onde é "do princípio ao fim mantida em regime de rigoroso isolamento", dizo historiador António Monteiro Cardoso. "Aurora Rodrigues vai ser submetida a um longo período de tortura do sono, acompanhado de espancamento bastante violento, para além de toda a espécie de vexames e ameaças, que faziam parte da técnica da PIDE/DGS para coagir os presos a "colaborar". As torturas a que Aurora foi submetida evidenciam a escalada de violência da PIDE/DGS no final do regime, passadas as promessas e ilusões de abrandamento nos primeiros tempos do marcelismo." (p. 53)Este historiador prossegue dizendo: "Com efeito, embora em casos extremos a PIDE não olhasse a classes ou estatutos, a verdade é que na sua actividade corrente era profundamente classista, torturando com maior dureza os presos oriundos de estratos sociais subalternos." (p. 54)

Ainda que brutalmente torturada, Aurora Rodrigues nunca falou. Mesmo durante os 16 dias seguidos de tortura de sono, de estátua, de espancamentos e mesmo de simulação de asfixia por afogamento, tendo a cabeça mergulhada à força num lavatório com água. Nem sequer quando, tempos depois, voltou a ser torturada, mas já por um período de tempo menor. Até porque, como a mesma afirma, a PIDE já tinha percebido que ela não quebrava e arranjava pequenos truques para resistir, nem que fosse a cantar.

"À distância, estas pequenas coisas até parecem infantilidades, mas não são. É isto que nos permite resistir. São as nossas pequenas vitórias, para além daquelas regras que tinha e que consegui cumprir. É quando começamos a perceber que temos mais força do que eles. Até chegar aí é que as coisas são mais complicadas, porque quando se atinge esse ponto eles já não nos tiram nada." (p. 113)

Um livro importante que vale a pena ler. 
 
Aurora Rodrigues reescreve, com a mesma coragem com que suportou a tortura, um período triste da história de um País.

"Com o miolo de pão, ia trabalhando e fazia rosas com pétalas (...) com a a vantagem de que podia fazer, e fiz, essas flores na tortura".

"Há uma coisa que nunca contei, porque é das que mais me afligiu. (...) O lavatório não dava para meter a cabeça completamente, metiam-me a cara, empurravam para baixo e eu ficava a sufocar."

in "Gente Comum, uma história da PIDE"
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