Recordar o Zeca

Dia 23 de Fevereiro assinala-se o vigésimo quarto aniversário da morte de Zeca Afonso. Nos próximos dias publicaremos textos evocativos da grandeza do homem, músico e poeta que servirá sempre de inspiração à nossa colectividade.


Foi em Setúbal, um dia.
Foi um dia chuvoso, com algumas résteas de sol e vento, coberto de cravos e de espantos.
Havia no ar uma música própria do universo, tema, hesitante, mas impiedosa, tocada pelas sombras.
Tinham vindo cantores de Espanha, de França, e de todo o lado um mar de gente sem nome, numa última homenagem. Que mais podiam fazer? O Zeca permanecia ali, numa escola fria, aguardando a viagem.
Qualquer coisa de sagrado havia-se-Ihes escoado pelos dedos, a amizade, a música, anos passados em silêncio e outros em luta pela terra, em minas e nas grandes fábricas do ferro e do vidro.
Estava-se ali a ver desaparecer, devagar, pelas ruas, um pouco de todos nós, afinal alguém que não soubemos amar como merecia.
O Zeca ia-se embora, sem mais, por entre milhares de corpos e de pensamentos.
Quantas paixões e ódios deixou para trás é difícil saber. O Zeca era essa ponte de ligação entre muitas pátrias, entre muitas amarguras e vitórias.
Todos sabíamos que ele não morre nunca, mas, naquele momento, a morte era uma estranho pesadelo em que não se queria acreditar.
Fui vendo o Zeca em cantos livres, em cafés, pelas casas de amigos comuns, no meio de comícios de solidariedade com os povos do mundo inteiro.
Estive com ele atrás de palcos, trocando as emoções de quem gostava de mais dos homens e da vida.
Vi-o em sua casa, em Azeitão, mais tarde, umas vezes entristecido, outras cheio de esperança, falando de OteIo, de cooperativas, de poemas, de livros, de teatros e de Brel, apelando sempre para que os jovens não deixassem morrer a música e a poesia.
O Zeca era sobretudo um poeta, mais poeta do que músico. Também ele havia recebido a voz dos deuses para a espalhar pelas planícies e pelas casas.
Era um homem bom, inteiro, demasiado puro para esta vida.
E isso talvez o tenha morto tão cedo.


Rui Ferreira e Sousa 
 

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